SOLO DE HARMÔNICA E SINFONIA DE PALMAS
14 de setembro de 2020

SOLO DE HARMÔNICA E SINFONIA DE PALMAS

Categoria | Harry Wiese

SOLO DE HARMÔNICA E SINFONIA DE PALMAS Harry Wiese Chamava-se Gustavo. Era imigrante europeu e se estabeleceu em terras rio-hercilianas. Ali, quis encontrar a felicidade, mas conviveu com a lida e a solidão. Solidão emanada da natureza: a distância e a reclusão. Quando a saudade da pátria era demais, soube procurar alívio. Abria o estojo envolvido numa flanela azul e retirava sua harmônica de boca. Sentava-se sobre uma pedra nas proximidades da floresta e tocava suas músicas prediletas. Não havia quem o ouvisse. Tocava para ele mesmo e para a natureza exuberante. Amenizadas as lembranças e a saudade, Gustavo voltava para casa e recolocava a harmônica no estojo, mas antes aplaudia a si, pois artistas, não importa em que lugares e circunstâncias estejam, necessitam de aplausos e o autoaplauso era tão triste quanto ele, Gustavo, o imigrante solitário, residente nas adjacências do Rio Hercílio. Gustavo muito quisera tocar outros instrumentos, não que a harmônica fosse desprezível, mas as finanças não lhe permitiram a aquisição de um violino, de um acordeão ou de um bandonion. Talvez tivessem sido antídotos do isolamento, porque violinos tocavam nas igrejas e acordeões e bandonions em salões de bailes e domingueiras, lugares perfeitos para convivências. Hoje, muito tempo depois, com a presença e atuação do Coronavírus, a maneira de tocar instrumentos como Gustavo tocava, embora quase esquecida, está retornando. Com os teatros, palcos, conservatórios e salões fechados e vazios, os artistas, para suavizarem a solidão e enaltecerem a arte, tocam nas varandas das casas, nas marquises e coberturas dos prédios, nas sacadas dos apartamentos, nas escadarias dos cemitérios e nas pedras quando há pedras em forma de palco. Nesses casos, os aplausos vêm das buzinas de carros e das palmas de transeuntes dispersos nas calçadas. E por incrível que pareça, vêm também dos pensamentos de algumas mentes de prodígio: “que bom que tem gente fazendo isso em tempos de sofrimento”! Assim como os músicos necessitam tocar seus instrumentos, os mestres necessitam ensinar seus discípulos. Fazem-no à maneira dos artistas, fazem-no de longe e a aprendizagem se torna invisível. Não importa, as tecnologias são partícipes do processo de ensino-aprendizagem, inimaginável em tempos idos, mas com todas as vantagens não atingem a todos. É fenômeno muito similar ao lugar onde Gustavo tocava sua harmônica: a pedra. Os pregadores nas capelas, nas igrejas, nos templos e nas catedrais também andam entristecidos. Não há a quem pregar ali. Todavia, quase como milagre, a palavra de Deus, entra nas casas de quem queira ouvi-la e as casas se tornam extensão de santuários. Em tempos de pandemia também acontecem maravilhas, mas é preciso percebê-las para assimilá-las e contemplá-las. Em um domingo de manhã, muito cedo, mesmo com máscaras, desobedeci às normas de quarentena e pus-me a caminhar pelas ruas do meu bairro. Há tempos não mais contemplei as casas e os jardins e não mais cumprimentei as colhedoras de flores. Sempre havia mulheres colhendo flores nas primeiras horas dominicais. O deserto das ruas era realidade e me tranquilizou a alma. Pensei em tudo o que aconteceu recentemente e a retrospectiva não foi boa. Pensei nas pessoas amigas que não mais vi no trabalho e no lazer, e outras que partiram e de quem não me despedi. Foi então que ouvi, em uma varanda, uma música suave e bela, que parecia uma orquestra tocando, mas creia-me, caro leitor, não foi uma orquestra... foi um solo de harmônica saudando a manhã! Então me lembrei de Gustavo e de sua harmônica. Mas nem tudo é tristeza e dor. Quando pacientes aguerridos deixam de ser pacientes e são aplaudidos por médicos e profissionais da saúde, no corredor de saída dos nosocômios, depois de terem vencido a pandemia, as palmas adquirem funções diferenciadas e não são mais aplausos, tornam-se uma sinfonia de palmas. É nesse momento que a ideia de harmônicas e palmas se funde em uníssono: o “Tema da Vitória”. Sei que a vitória há de vir e eu espero ansiosamente por ela!

< Anterior Próximo >